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Cogitou a possibilidade de trair a namorada. Ligou para a outra e a outra atendeu. Fez juras de amor e disse que era doido por ela. Que nunca a havia esquecido e lembrava sempre dela em todas as áreas do pensamento. Disse tudo isso e depois foi até a varanda para acender o seu ultimo cigarro. Olhou para o relógio e viu os ponteiros. Deduziu que era umas nove e vinte da noite. Pensou “logo, daqui a quarenta minutos ela estará aqui”. Mas não passava pela sua cabeça a idéia de que ela talvez não estivesse tão afim. Mas concluiu que se ela realmente estiver vindo é por que provavelmente esteja.

Quando foi dez e dez da noite a campainha tocou. Ele já havia tomado o seu banho, tinha vestido a melhor cueca e foi pego de surpreso pelo toque da campainha. Ele na verdade tinha pensado em trancar tudo já e ir dormir. Bom, como já tinham tocado a campainha anteriormente e não era ela, talvez dessa vez não seja de novo.

Quando a porta se abriu e diante dela surgiu um homem mais velho do que aquele que um dia teve um relacionamento há três anos seu coração disparou. Seus olhos se encheram de lágrimas e foi bonito. Na mesma hora um choque de emoções a surpreendia. E foi lindo por que ela, como era tão pequena, pulou de tanta energia que havia carregado até ali, esperando aquele momento. Ela pulou, agarrou ele e disse que estava muito molhada, pois a chuva havia molhado os seus sapatos.

Eles entraram, e foi lindo. Nada aconteceu. Ele não traiu a namorada e deixou ela partir outra vez rumo ao horizonte dos sozinhos perdidos, da muralha da moralidade, da sociedade hipócrita que nos rodeia todos os dias.


O mundo da eternidade

Liebesleid by Yo-Yo Ma on Grooveshark


Elogios são desnecessários a homens e mulheres de nossa época. Eles são perfeitos. Não exigem o misero elogio que um pobre qualquer necessite.

Vivemos no tempo da perfeição. Sem duvida, não há raça mais superior que a nossa. Já criamos tudo o que podíamos criar. Já embutimos tudo o que poderíamos embutir. Fizemos de tudo! Inclusive descobertas que maravilharam o mundo.

A morte já não existia mais. As doenças já não existia mais. A dor não existia mais. Não existia mais velhos. Todos somos jovens e belos. Finalmente o ser humano descobriu um modo de alcançar a eternidade! Finalmente! Descobriram um modo de tornar homens e mulheres iguais! 

Porém, alguém um dia reparou que não somos maquinas. Somos seres advindos da natureza do planeta. Tudo é mortal. Deus foi mortal. Não se pode conceber a idéia de que a vida deve durar para sempre, pois “para sempre” sempre acaba...

Quando esse alguém reparou que não morríamos mais e consequentemente o mundo ficou pequeno logo ocorreu o que ninguém nunca imaginou. O que viera como milagre e a solução de todos os problemas tornou-se o nosso maior erro. Não podíamos ter mais filhos, não podíamos mais fazer amor, não podíamos mais ser feliz e partilhar essa felicidade com alguém. A desculpa era que tudo não passava de uma medida de “segurança”.

E assim, não tivemos mais problemas de crescimento populacional. Contudo, tínhamos a vida eterna, mas não poderíamos ter alguém para com ela dividir a nossa eternidade.




Passara muito tempo lendo livros e refletindo muito. Isso não é nenhuma desvantagem, porém, o seu volume de experiência é muito menor do que esperado.

Ele já é um homem. Parece um homem. Deveria ser um homem. Porém, não passa de um menino amedrontado e revoltado com o mundo. Insiste que o seu jeito de viver é o melhor jeito de que pode ter noticia. Contudo, seu jeito de viver esta empoeirado nas estantes e hoje em dia não há ninguém que esta interessado nas antigas escrituras ou nos antigos mestres.

Agora parece com medo. Perdera quem amava, ganhou um emprego, hoje sofre por que tornou-se mais um de nós. Sofre por que vê que sua fome só poderá ser saciada assim que seu chefe lhe der o salário. Sofre por que vê que tornou-se mais tijolo no muro.

Essa reflexão toda incomoda a ele e a nós, por que sabemos que somos todos fantásticos, cada um tem o seu mundo (ou como já dizia “cada um de nós é um universo”) e por isso não deveríamos ser tratados como os outros.

Mas o sonho acaba. O chão da realidade é gelado. A vida exige força e prática. Precisamos de heróis e não de pensadores.

A sociedade progrediu e levou com ela todos nos, inclusive ele. Ele entrou pro grupo das pessoas que precisam sofrer. E sofre por isso.

Do sonho - Capitulo I


Parecia um sonho. Lembro que estava num salão com muitas outras pessoas. Elas pareciam estar se divertindo, bebendo alguma coisa, conversando, flertando. Algumas pessoas me olhavam. Eu apenas entrei no salão.
E então quando eu menos esperava, um sujeito que estava a poucos metros a minha frente, levantou-se de sua cadeira e simplesmente agrediu o rapaz que estava ao seu lado sentado e conversando com uma garota – aparentemente sua namorada ou esposa. Ele deu soco tão forte, mas tão forte que de onde eu estava eu pude ouvir perfeitamente o impacto!
Nisso um outro sujeito que estava sentado com aquele que agredira o outro, tenta segurá-lo. Mas impossível por que este também foi agredido pelo o homem enlouquecido.
Enquanto o homem que agrediu o rapaz de sua mesa ainda admirava a agressão feita, o rapaz que havia levado um soco da primeira vez, após recuperar-se da lesão, levanta e agride o agressor. Eis que está formado o campo de batalha.
Ao mesmo tempo que tudo isso acontece, do outro lado do salão, eu não pude ver direito, parece que esta acontecendo a mesma coisa! A situação espalhou-se, e eu estava encrencado por que estava perto dos eventos e não estava nada a fim de brigar.
Aquele grupo que estava mais próximo de mim – incluindo a namorada que resolveu entrar na briga também – estavam se aproximando de mim. Tentei procurar uma porta, mas não pude encontrá-la a tempo de um dos homens me agredir e depois disso só me lembro da escuridão.

No dia seguinte acordei assustado em meu quarto. Perguntei-me como fui parar ali deitado na minha cama? Será que tudo o que eu vivi não passou de um sonho? Que lugar era aquele, quem eram aquelas pessoas e por que comportavam se daquele jeito?
Olhei para o meu despertado e vi que faltava dez minutos para eu entrar no trabalho! Simplesmente pulei da cama e fui direto ao banheiro para lavar-me e trocar de roupa.
Passado o período “não sei como tudo aquilo aconteceu” ao chegar ao meu trabalho vejo um e-mail que dizia para comparecer ainda hoje a um evento em homenagem a alguém do trabalho no horário X e no local Y. O evento era a noite e próximo de minha casa, eu não ia atrasar, aliás, até vou chegar cedo.
Fiquei o dia todo com aquele sonho na mente. Comentei com a minha namorada, mas ela como qualquer outra pessoa achou tudo aquilo um sonho bem estranho. Tentava explicar que eu literalmente vivi o sonho. Mas ela não compreendeu, ninguém compreenderia.

Próximo do horário marcado, fui até o local do evento. Como ficava perto de casa eu não precisava correr até lá, bem como não precisei marcar com ninguém do trabalho para me irmos todos juntos. De todos do trabalho eu sou o único que mora perto do trabalho. Isso me da algumas vantagens como, por exemplo, sair de casa faltando dez minutos para começar o trabalho. Além de morar perto do meu emprego eu ando muito rápido. Meu trabalho exige que eu seja ágil, e por isso eu adquiri essa habilidade de poder caminhar distâncias razoáveis em poucos minutos – o que alguém levaria alguns minutos correndo eu faço em menos minutos só que andando!
Quando cheguei até o local marcado me deparei com um estabelecimento parecido com um restaurante. Havia muitas pessoas na frente sentado em mesas na calçada do restaurante. Havia seguranças de terno preto e havia uma porta no centro do estabelecimento que tudo indicava que ali era a entrada.
Passei pelas pessoas, cumprimentei os seguranças, abri a porta e entrei. Não era uma casa noturna se não seria revistado. Lá dentro era um enorme salão. O bar ficava ao fundo, havia mesas por todos os lados. Muitas pessoas conversando e o som tocando. Tudo normal, olhei pro relógio e vi que falta um bom tempo para o pessoal do trabalho chegar, então eu sai novamente. Fiquei olhando as pessoas sentadas nas mesas da calçadas e pensei de como era engraçado fazer o que todo mundo faz.
Estava escurecendo, algo me dizia para entrar novamente, talvez poderia pedir alguma coisa para beber enquanto as pessoas não chegavam.
Assim que eu entrei no estabelecimento ouvi um barulho na porta atrás de mim, algo me dizia que alguém trancou a porta. No momento isso não me chamou tanto atenção quanto a cena que eu via na minha frente. As pessoas da primeira mesa a minha frente eram as mesmas do sonho, bem como o casal da mesa ao lado era o mesmo! Tomei um susto. Outra vez! Será que tudo aquilo foi um sonho ou estava mesmo aqui! Isso é algum tipo de déjà vu? Se for, o que esta prestes a acontecer não me é nada agradável.
Naquela hora tentei ligar para a minha namorada, mas o sinal do celular não pegava ali dentro. Talvez por que no sonho eu não havia utilizado o celular! Será?
Algo me chamou atenção bem ali na frente. O homem que agrediria o outro em questões de minutos levantou-se e eu pensei “é agora”. Dito e feito aconteceu mesmo. O homem sem explicação nenhuma, por que agora eu pude ver com mais precisão que ele não estava sequer falando com o rapaz da mesa ao lado, deu um soco tão forte no rosto do sujeito da mesa ao lado que deu pra ouvir o impacto da onde eu estava. Nesse mesmo momento a namorada do rapaz deu um grito dizendo seu loco para o rapaz que agrediu seu namorado, no mesmo momento o rapaz que esta sentado na mesa do agressor levantou-se e tentou impedi-lo de um novo golpe. E a cena se repetiu. Alguma coisa muito estranha tinha naquele lugar por que do outro lado do salão a mesma briga começou acontecendo, assim como era no sonho. Logo, tudo o que sonhei não era sonho!
A confusão toda já estava armada, eu tentei abrir a porta, surrei na esperança de que alguém do outro lado pudesse ajudar me, e nada. Quando eu vi outra vez toda aquela confusão tal qual era no sonho já era tarde por que o agressor havia me atingido em cheio o meu rosto.
Doeu tanto que eu fiquei sem consciência por alguns instantes. Dessa vez eu não apaguei. Pelo contrário, pude ver o que aconteceu depois. Reparei que os olhos do agressor estavam tingidos de vermelho, e que de sua boca saiu algum tipo de espuma! Simplesmente bizarro!
Os socos e os empurrões me levaram até o centro do salão onde eu pude ver que outros homens e algumas mulheres estavam com os olhos vermelhos e soltando espuma pela boca. Enquanto eu reparava nisso todo mundo brigava no salão. Pessoas do bar, casais de namorados, senhores e senhoras, rapazes, brancos e negros, todos envolvidos numa luta sem motivo algum.
Antes de sentir novamente o outro golpe que me fez perder todas as outras cenas que eu poderia narrar, senti alguma coisa me picando e logo em seguida eu pude sentir alguma coisa tomar conta da minha mente, espuma começava a sair da minha boca – minha garganta ardia e muito – e meus olhos lacrimejavam. O golpe veio e não me lembro de mais nada.

Minha cabeça doía e muito quando eu acordei na manhã seguinte. Era sábado e pelo o que eu me lembro havia do a um evento do trabalho. E abriga?! O que aconteceu comigo depois do soco que levei. Como era sábado e eu não trabalho de sábado, levantei e fui ao restaurante ali perto de casa.
Chegando lá vi que alguns homens estavam lavando a calçada. Tudo absolutamente normal. Então eu cheguei perto de um dos homens e perguntei se ele sabia que fim deu a briga que aconteceu ontem a noite. Ele me olhou com estranheza. Eu o encarei com mais estranheza ainda. Ele me disse que não aconteceu briga nenhuma no restaurante ontem. Fiquei surpreso. Não era de se esperar que você acorda num sábado depois de uma briga na noite passada e ao ir até o local você se depara com uma resposta do tipo “não aconteceu briga nenhuma no restaurante ontem”. Me despedi do homem. Ele continuou lavando sua calçada e eu permaneci com as minhas duvidas... O que esta acontecendo?

Era tarde de inverno. A lareira continuava acesa. Ela permanecia sentada enfrente ao fogo que consumia a madeira. Estava olhando para um álbum de fotografia que datava de 1987. Os tempos eram outros.
Esticara o braço para que fosse possível a passagem do sangue por todo o corpo, isso evitaria com que o seu braço adormecesse mais tarde. Deixou os fios de cabelo escuro deslizar para o outro lado do ombro. Fazia frio lá fora.
Parou por um instante para admirar o fogo. Via aquelas chamas arderem na sua frente. Era possível se deslocar para o momento daquelas fotos. Era verão de 1987 e além do calor o país todo passava por uma grande transformação.
Estava próximo das seis horas da tarde quando o pensamento retornou para aquela lareira, para o frio que fazia lá fora e para o chão coberto por um tapete persa.
Percebeu que se esquecera de algo. Ela havia deixado muito tempo passar, afinal, anos se passara e pessoas entraram e saíram de sua vida. É impressionante a fluxo de homens que entra e sai na vida de uma só mulher.
Foi quando esta conclusão alcançou o seu ânimo que ela deixou cair no tapete algumas lágrimas. Lágrimas estas que muitas vezes foram usadas para alegria, tristeza, felicidade, decepção. A verdade é que não sabemos ao certo o numero de vezes que somos decepcionados. Então se lembrou de que podemos nos recordar de quantas vezes nos decepcionamos com nós mesmos.
Tantos anos se passaram e só agora ela se deu conta que tinha sido usada, manipulada e várias vezes traída. Percebera que aquele ideal de “mulher moderna” ou “mulher diferente” nada mais eram que pressupostos para se estabelecer em um “status importante”. Era assim que vivia a vida.
Desde pequena sempre vira na TV ou ouvira no rádio o que acontecia com pessoas como ela. Mas nunca acreditara que essas coisas aconteceriam com ela, pois se achava forte, inteligente e bela. Acreditava que possuía poder, afinal, muitos foram os que sucumbiram a seus pés.
Talvez fosse inteligente, ou até mesmo possuía tamanho poder, mas uma coisa é certa, ela jamais deixou o posto de a mais charmosa e encantadora entre os círculos de mulheres que costumava freqüentar.
Talvez o jeito egoísta e ao mesmo tempo sedutor não deixara passar que não passava de um ser humano extremamente frágil, sensível, necessitando de atenção. Que não passava de alguém que chorava fácil ou que não precisava de razões para refletir sobre os seus próprios atos, principalmente sobre os seus erros.
A verdade é que por muitas vezes ela deixou escapar a grande chance de ser feliz. E foi naquele verão de 1987 que ela se despediu dele.
Quando a noite finalmente chegou ela resolveu apagar o fogo e ir se deitar. Junto com o álbum de fotografia que a transportara para o passado. Para as origens remotas dos sentimentos magoados e feridos. Para onde ela se despedira dele com o encostar dos lábios e as lágrimas aos olhos.  

Talvez faça calor hoje o dia todo. Mas isso não é problema, afinal, o tempo nunca tinha sido o problema até hoje para ele.
Refletia sobre algo muito importante, ou pelo menos muito importante para ele. Estava sentado na mesa da cozinha com a xícara de café fria na sua frente. Na mesa, além da xícara fria, tinha também um pão com manteiga, alguns talheres, um jornal aberto na pagina que fizera ele refletir, uma mancha de algo que foi derramado parecendo ser café e algumas formigas.
Atrás dele tinha um rádio onde tocava uma musica velha dos anos 60, uma luz apagada, uma geladeira que está vazia, alguns livros esparramados sobre a mesa onde estava o rádio e o corredor que dava acesso ao resto da casa onde morava.
De repente, ao ritmo da musica, ele deixou ser levado por um sentimento quase sutil. Lembrou de todos os momentos bons, pois a musica atrás dele fala de algo muito bom, e aliás, ele gostava de quem cantava aquela musica.
A musica pode fazer com que ele abandonasse aquele instante perturbador que se formara naquela manhã de segunda-feira. Pode também fazer nascer algo que há muito tempo não aparecia por aquele lugar tão monótono e vazio de emoções.
Sai uma lágrima de seus olhos. A lágrima brilhava e molhava o rosto daquela pessoa que até o momento estava cercado de duvidas que jamais saberemos o que são. Duvidas que morreram com ele, se resolveram por ele e tudo o que podemos saber é onde tudo aquilo começou.
A lágrima, que agora escorria por perto do queixo, de repente fez questão de cair em uma das mãos que estavam apoiadas sobre o colo do sujeito. E nesse mesmo instante a mão do sujeito sentiu o que há tempos lhe faltava, o que há tempos tinha se perdido, o que há tempos não sentia mais. E então a lágrima foi de encontro a superfície calejada, dura e seca da mão ao mesmo passo em que a mão pode sentir a leveza, a pureza e a serenidade da gota que lhe molhava a superfície.
E foi assim que tudo começou naquela casa. Tantos sentimentos vazios que haviam se espalhados ao passar do tempo. Sentimentos sem cores, sem força e sem vontade. Foi assim que a vida retornou ao teto daquele sujeito e mais uma vez, talvez por um milagre, uma loucura deixou de ser elaborada, pensada e realizada.
Foi assim ao som de uma musica com letras miúdas, cada palavra com um sentimento, cada nota com uma emoção. E foi assim que as coisas se resolveram. As lágrimas puderam sair para ver a vida e a vida entrar para se sentir confortável.