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Era tarde de inverno. A lareira continuava acesa. Ela permanecia sentada enfrente ao fogo que consumia a madeira. Estava olhando para um álbum de fotografia que datava de 1987. Os tempos eram outros.
Esticara o braço para que fosse possível a passagem do sangue por todo o corpo, isso evitaria com que o seu braço adormecesse mais tarde. Deixou os fios de cabelo escuro deslizar para o outro lado do ombro. Fazia frio lá fora.
Parou por um instante para admirar o fogo. Via aquelas chamas arderem na sua frente. Era possível se deslocar para o momento daquelas fotos. Era verão de 1987 e além do calor o país todo passava por uma grande transformação.
Estava próximo das seis horas da tarde quando o pensamento retornou para aquela lareira, para o frio que fazia lá fora e para o chão coberto por um tapete persa.
Percebeu que se esquecera de algo. Ela havia deixado muito tempo passar, afinal, anos se passara e pessoas entraram e saíram de sua vida. É impressionante a fluxo de homens que entra e sai na vida de uma só mulher.
Foi quando esta conclusão alcançou o seu ânimo que ela deixou cair no tapete algumas lágrimas. Lágrimas estas que muitas vezes foram usadas para alegria, tristeza, felicidade, decepção. A verdade é que não sabemos ao certo o numero de vezes que somos decepcionados. Então se lembrou de que podemos nos recordar de quantas vezes nos decepcionamos com nós mesmos.
Tantos anos se passaram e só agora ela se deu conta que tinha sido usada, manipulada e várias vezes traída. Percebera que aquele ideal de “mulher moderna” ou “mulher diferente” nada mais eram que pressupostos para se estabelecer em um “status importante”. Era assim que vivia a vida.
Desde pequena sempre vira na TV ou ouvira no rádio o que acontecia com pessoas como ela. Mas nunca acreditara que essas coisas aconteceriam com ela, pois se achava forte, inteligente e bela. Acreditava que possuía poder, afinal, muitos foram os que sucumbiram a seus pés.
Talvez fosse inteligente, ou até mesmo possuía tamanho poder, mas uma coisa é certa, ela jamais deixou o posto de a mais charmosa e encantadora entre os círculos de mulheres que costumava freqüentar.
Talvez o jeito egoísta e ao mesmo tempo sedutor não deixara passar que não passava de um ser humano extremamente frágil, sensível, necessitando de atenção. Que não passava de alguém que chorava fácil ou que não precisava de razões para refletir sobre os seus próprios atos, principalmente sobre os seus erros.
A verdade é que por muitas vezes ela deixou escapar a grande chance de ser feliz. E foi naquele verão de 1987 que ela se despediu dele.
Quando a noite finalmente chegou ela resolveu apagar o fogo e ir se deitar. Junto com o álbum de fotografia que a transportara para o passado. Para as origens remotas dos sentimentos magoados e feridos. Para onde ela se despedira dele com o encostar dos lábios e as lágrimas aos olhos.  

Um comentário:

  1. estou gostando de seus textos, gostei das duas historias.
    queria saber sobre seus pensamentos e idéias.

    parabéns Ma.

    continue...

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