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Quando retornar para casa


Sabe o que era que eu mais gostava antigamente? Perguntei ao outro...

“O quê?”.

Gostava de olhar para o céu e contar o número de estralas...

“Consegue imaginar que além das estrelas que existiam no céu havia mundos além do nosso”?

Não – respondi.
Quando era pequeno gostava de acordar cedo, principalmente de domingo. Na cabeceira da minha cama ficava a janela. Minha mãe sempre abria a janela em dia de domingo. Os homens soltavam fogos, não sei por que razão. Mas hoje sei que o motivo pelo qual as pessoas faziam isso nada mais era pelo motivo de comemorar mais um dia de vida. Mas o que me tocava naquela situação toda era que eu poderia ver o azul claro do céu. Era tão lindo...

“Você realmente duvidou de tudo isso que você vê hoje?” – perguntou a entidade para mim.

Então respondi:

Eu era feliz quando criança. Gostava de ver o sol nascer e gostava de ver o sorriso das pessoas quando me davam bom dia. Quando cresci e me tornei o homem que deixou de existir, eu havia me esquecido como era nascer num mundo tão puro e tão belo como é este...

“Mas você não me respondeu...” – disse a entidade para mim.

Eu respondi sim. Você é quem não percebeu o quão tolo eu fui para duvidar de toda a criação e toda a engrenagem que existe na vida. E hoje, mesmo depois de morrer e ter sido enviado para outras dimensões, eu percebo o quão estúpido eu fui...

“Não faça isso. Você era carne, e a carne é fraca. Os homens erram, a humanidade precisará nascer outra vez. Não se condene por ser tão pequeno a ponto de duvidar de toda a existência. Não se condene”.

Mas uma coisa é certa – disse.

“O quê?”

Terei de voltar ao primeiro grau para pagar pela minha estupidez. E novamente não me lembrarei das imagens que agora vejo passar diante de mim. Todas as lembranças, todas as imagens e sons. Todos os sentidos e emoções. Tudo isso pode ser sentido do outro lado da vida. Eu vou me esquecer e pode ser que eu esteja sujeito a duvidar e me esquecer dessa maravilha que é a imortalidade.

“Calma...” – disse a entidade. “Assim como tudo, você também terá de recomeçar do zero. Pois é isso que ele exige de tudo. E quem sabe, depois que morrer outra vez, você possa finalmente ir compartilhar do paraíso que é viver no Edem”.

Quando isso pode acontecer comigo? – perguntei.

“Não existe quando. Não existe como. Não existe tempo e nem espaço. Somente esteja preparado para a nova vida que terá de ser. E esteja pronto para retornar para casa...”



Um comentário:

  1. Você leva mesmo jeito para escrever essas histórias!!!
    Já lhe disse que poderia investir na elaboração de livros e ser um grande escritor?
    Estou torcendo por você, por isso criei uma página no Mural para compartilhar seus textos.

    Avante garoto!!!

    Contos de Marcelo - http://muraldecristal.blogspot.com.br/p/blog-page_28.html


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