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O segredo do Rio Jordão

Prólogo



(...) Uma mulher sentava num restaurante com aquele que iria pedir-lhe em casamento, naquela mesma noite. Ela tinha um pouco mais que vinte e seis anos, e ele, vinte oito exato!
Ela conheceu ele na faculdade, cursava o mesmo curso que ela só que sentava nos bancos de do fundo da sala. Sempre aprontava e foi justamente isso que chamou a atenção dela. Ela é de família tradicionalíssima, moralista e dogmática. Ele gostava de sair pelas noites e se embebedar com os amigos, típico de um jovem da cultura ocidental.
Ambos cresceram na grande metrópole, São Paulo. Sabem muito sobre essa grande cidade. Conhece seus prédios, suas construções, sua cultura e civilização. O povo daqui adora sair por ai a noite, curti as night, mas ela não podia sair por que o pai não deixava.
O pai dela era um aposentado da policia militar. Muitos anos de trabalho lhe rendeu conhecimento suficiente para ter guardado ainda dentro de uma gaveta de seu escritório uma pistola. Sabe muito bem quem são as pessoas que caminham pela frente de sua casa, principalmente a noite. As noites de vigilância lhe rendeu boa experiência já que o Estado não investia na segurança e com isso a criminalidade foi só aumentando de tal forma que a ideologia em sua época era só uma: bandido bom é bandido morto.
Só que agora os tempos são outros. E com isso a velha ideologia da policia militar limitou-se a vigiar e esperar um bom aumento. A classe é cada vez mais deixada ao relento quando o assunto é sobre políticas publicas. O Estado nunca se preocupou e jamais se preocupará com a segurança da cidade. E é por isso que o Sr. Raimundo, pai de nossa garota, resolver ficar na vigilância das noites.
Foi numa dessas noites que o Sr. Raimundo percebeu que logo após o termino das aulas da filha na faculdade, ela era trazida até em casa por um rapaz. Bonito, mas não muito inteligente. Ele tinha uma postura de um cara sabido e tudo mais, mas Sr. Raimundo conhece bem as pessoas. Sabia que aquele jovem era pouco inteligente para passar na frente de sua casa acompanhado de sua filha. Ele mal sabia o perigo que estava escondido atrás da porta da casa de Beatriz, a jovem que está prestes a ser pedida em casamento.
Beatriz começou a namorar o jovem do fundo da sala. Ele a enrolou durante sete anos. Então resolveu pedir a mão e de sua namorada em casamento. Beatriz gostava dele. Mas seu pai implicava dizendo que esse jovem só queria mesmo era saber daquilo que as mulheres tem de melhor.
O desejo do pai de Beatriz, o Sr. Raimundo, era justamente que a filha seguisse os passos da mãe, já falecida por causa de um câncer no pulmão. De casar-se virgem. Seguindo a tradição da religião e dos bons costumes éticos da sociedade contemporânea.
Porém, mal sabe o Sr. Raimundo que os costumes morais dessa época já não são bem valorizados, e que Beatriz conhecia muito bem o que o pai lhe orientava. Ela ainda era virgem, mas aceitaria há tempos um pedido de casamento com quem fosse, em especial com o jovem do fundo da sala, para livrar-se logo de uma vez desse estigma e dessa cultura abalada que a família dela insistia em seguir.
Mal sabia ela que do outro lado do mundo há um grande homem, perdido dentro de seus questionamentos, em busca de solução para os seus problemas. Ele estava a procura das águas do rio Jordão.
Nesse rio Jordão há uma lenda que ainda nos tempos de hoje há um homem de nome João que pratica o mesmo ato que aquele que batizou o filho do homem praticava. Assim, muitos relatavam curas inexplicáveis.
Beatriz mal imagina que grandes surpresas estão para acontecer. Que sua vida vai mudar, que ela não irá casar com o seu namorado de sete anos, que irá fazer uma viagem para o outro lado do mundo e que lá se casará com um homem de cultura diferente da sua. Fará com que ela se torne rica. Ela perderá o gosto por aquilo que um dia estudou e trabalhou. Largará toda a sua história e assim viajará mais um pouco por terras desconhecidas. Lá, no oriente médio, encontrará um homem sentado na beira de um poço, seu nome é Baltazar, ele é aquele homem que tanto procura respostas. Ele a ensinará coisas sobre a vida que aprendera quando encontrou o homem que pratica o batismo as margens do rio Jordão.
Beatriz não espera por isso. Ainda sorri enquanto o seu namorado chama o garçom que trará numa bandeja a aliança a qual pretende colocar no dedo de sua amada. Seu namorado não sabe que todo o seu plano que havia traçado para finalmente conseguir dormir com Beatriz irá por ralo a baixo. E isto por que os céus não querem que eles fiquem juntos, isso, é claro, somado com a vontade do pai.




Capitulo 1


Foto de Caio Tozzi

Quando começaram a namorar ele tinha vinte e um. Era muito jovem. Quando descobriu que ela fazia parte de um grupo de pessoas que rezam o terço na casa das outras pessoas ficou claro que deveria tomar outra postura para ter alguma relação carnal com Beatriz. Era simples assim, ele se comportaria durante alguns meses e enquanto isso procurava um jeito de fazer a cabeça dela. Convenceria ela de que deveriam dormir juntos e quando isso acontecesse, pronto, acabou, mais uma mulher conquistada e feita para o mundo.

No colégio ele era conhecido como o “senhor quebra cabaço”. Gostava dessa reputação. As pessoas olhavam para ele com respeito. Alguns com ódios, pois gostava de roubar as namoradas daqueles pobres coitados que se quer tinham um centavo no bolso para levar a namorada para tomar um sorvete. E ele, como não era bobo, pegava o carro do pai – que também era um porcaria como o filho – e saia pagando de playboy. As meninas adoravam sair com rapazes com carros. Elas pediam a ele que as levassem para qualquer lugar: “eu vou pra onde você me levar Gustavo”. E era essa a boa reputação que Gustavo queria manter, do cara que pega as menininhas que gostavam de dar uma volta no carro. E não só isso, mas o “senhor quebra cabaço”, pois todas essas menininhas eram virgens, e com a ajuda da aparência do carro, elas achavam que Gustavo era mais velho – por que dirigia, mas ainda não tinha habilitação – logo, faziam qualquer coisa para que ele as levasse para onde Gustavo queria levar.

Quando conheceu Beatriz pensou que poderia aplicar o mesmo golpe. Ela já estava na faculdade e ainda não havia se deitado com um cara. Era a chance de Gustavo deflorar uma garota da faculdade. Isto por que a maioria das garotas – as belas – da faculdade já não eram mais virgens, isto por que a maioria delas já andaram de carro antes dois quinze. Então, quando Gustavo ficou sabendo que Beatriz era a pedra preciosa da sala de aula, não perdeu tempo.

Quando sentou do lado de Beatriz pela primeira vez estava na sala o professor de filosofia. Ele estava falando alguma coisa sobre o mito da caverna, uma teoria criada por um sujeito chamado Platão e que viveu numa época antes de cristo, coisa pra gente chata. Com Gustavo não gostava de perder o seu tempo vendo aulas de filosofia o seu ego inflou e o seus neurônios forma se perdendo com o tempo. Seu motivo de viver foi esquecido, ou melhor, jogado no lixo, isto por que só existe uma filosofia a seguir, eu quero sexo e pode colocar mais. Existia uma figura no mundo filosófico que despertou a simpatia em Gustavo e foi um meio habilidoso que se utilizou para chegar mais perto de Beatriz. Esse sujeito era Santo Agostinho, celebre pela sua máxima “Deus me conceda a castidade, mas não agora”. O engraçado nisso tudo é que se Gustavo tivesse assistido a essa aula sobre Platão ele provavelmente teria mais argumentos a serem utilizados quando ele conquistou Beatriz através da figura de Santo Agostinho.
A aula estava um porre, segundo o que pensava Gustavo. Para Beatriz era super interessante, pois ela adorava filosofia. Então quando aquele sujeito de barba mau feita e camisa pólo de gola aberta sentou ao seu lado ela realmente achou aquilo estranho – já que sabia que aquela criatura sentava no fundo da sala e que pouco se importava com filosofia – e foi logo medindo o sujeito, com medo da primeira vez, voltou a concentrar-se na aula.

O problema na aula é que era muito parado. Parecia um negócio meio pastoral. O professor ia lá na frente, e ficava dizendo coisas sobre filósofos, filosofia, modos de pensar e modos de buscar as respostas, mas ele não trazia exemplos do que dizia. Não tinha como tocar o assunto que ele falava. O professor falava por horas, se deixasse era capaz de virar o dia falando da importância de Platão nos dias de hoje. Besteira pura. Todos sabemos que Aristóteles é quem estava com a razão. E para Gustavo, que veio a algumas aulas sobre Aristóteles – sujeitinho que foi preceptor de Alexandre Magno – para ele Aristóteles foi quem ensinou filosofia a Platão e por isso Platão discordava de toda a sua teoria – fala sério!

A primeira coisa que ele inventou para dizer a Beatriz naquele momento em que resolveu sentar ali para encher a paciência da jovem foi que a aula estava meramente agradável. Beatriz olhou e o encarou por alguns segundos.

Ela pensou “será que realmente ele sabe o que quer dizer meramente?” e depois concluiu alguma coisa em sua mente e voltou os olhos para a aula. Isso fez com que Gustavo ficasse mais interessado pela jovem. Ser difícil para ele era uma delicia.

Ao final da aula, depois de fazer uma série de perguntas ao professor sobre a vida e a obra de Platão, Beatriz reparou que o professor encarava o fundo da sala. Então o professor disse que “aquele sujeito ali não desgrudou os olhos de você nem um minuto”, ela olhou para o sujeito e eis que surge na sua frente a figura de Gustavo. Ela se assustou!

“Pronta?” disse a ela e ela virou para o professor e este somente olhou para cima e disse algo bem baixinho que nem deu pra ouvir direito. O professor terminou de arrumar as suas coisas que estavam na mesa e foi embora, saiu da sala de aula. Beatriz ouve mais um “pronto?” e voltou sua face que ficou frente a frente com Gustavo.

Na época ela ainda usava óculos. Gustavo olhava aquelas lentes enormes olhado para ele. Não entendeu direito por que tanta demora já que é só responder sim, sim! Ou um não. Então ouve Beatriz dizendo se era com ela que ele falava. Como não era nem um pouco educado ele disse que falava com a porta: “você está pronta para ser fechada porta?”. Ela não achou graça. Na verdade achou, mas não quis demonstrar esse tipo de reação para um animal como Gustavo era.

“Saia da minha frente seu grosso!” e empurrou Gustavo para o lado. Ele exclamou algum palavrão e saiu atrás dela. Ela andava rápido demais entre os alunos parados no corredor das salas de aula da faculdade. Pessoas riam, conversavam, ouviam musica, fumavam, fofocavam e marcavam os horários para ir para as baladas da noite.
Ele a puxou pelo braço e disse pela primeira vez a primeira coisa que valeu ser escrita sobre ele até agora: “Hey! Pelo menos me dê uma chance pra te mostrar que posso ser diferente!” e foi ai que ele conquistou o doce coração dela.

Com o decorrer dos dias e com a ajuda das aulas de filosofia, principalmente agora que estavam falando de Santo Agostinho e ele já estava ligado que ela era muito religiosa, os assuntos foram só aumentando. A amizade de alguma forma cresceu. E Gustavo passou a levar Beatriz para casa de carro.

Logo na primeira vez ele achou estranho o comportamento dela no carro. Ela não se importava com o fato dele dirigir. E ele como era um jovem com pouco cérebro não entendia essa situação. Então ela disse que diferente de todas as meninas que ele já conheceu ela se impressiona com a capacidade intelectual dos homens e não com o tipo de carro que tem ou que deseja. Se fosse assim, ela iria ver partidas de golf e não ia fazer direito na faculdade.

Foi esse tipo de comentário que deixou Gustavo mais atencioso e cauteloso pelo fato de que ele viu que ela não era como a maioria das garotas eram.

Toda vez que ele a deixava em casa percebia que dentro da casa dela sempre estava escuro. Achou estranho e então perguntou a ela se ela morava sozinha. Ela disse que morava com o pai apenas. Ele perguntou sobre a mãe, e ela contou que a mãe havia morrido por conta de um câncer no pulmão. E que em casa quando ela chega o pai dela já esta dormindo.

Mal sabia Gustavo que os seus planos já estavam caminhando para um final infeliz. O pai de Beatriz é um aposentado da policia militar do Estado de São Paulo. E que desde que ele começou a levar ela o pai dela tem reparado nele.

Sr. Raimundo não gostava de pessoas “diferentes” andando com a filha.


(...)





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